terça-feira, 29 de março de 2011 10 comentários

Ricochete


Há dias que são assim: 
essa rejeição às soluções fáceis,
essa aflição por qualquer mancia.
Busco uma outra certeza, um modo
de dizer, um lapso.

(Espio sob as dobras do discurso).

Queria poder habitar a folha
                                  sem tantas rasuras
e não mais bater o coração
contra essa parede de palavras.

O mundo me importa tão só enquanto
                                  se engasta em escrita,
                                  pois o que não sei
                                  fazer desconto
                                  no que escrevo

e escrevo como se em algum lugar,
entre o inalcançável e o invisível,
eu soubesse haver uma resposta fácil,
aquela que rejeitei logo de início.


sábado, 26 de março de 2011 10 comentários

Feliz aniversário


Hoje não é um dia qualquer.
Afinal de contas, aniversário é
uma vez só ao ano. Quero
que esse dia seja mais
do que simples tapinhas nas costas,
apertos de mão, salgados, bolo, velas.

Quero, sobretudo, que você seja feliz.

Feliz nas pequenas coisas.
Elas é que dão à felicidade
oportunidade de se acercar de você,
silenciosamente, e destas
pequenas felicidades inesperadas
é de que é feita a vida.
Celebre-se a si mesmo.
Que possa sempre haver
alguma coisa que você queira
aprender, algo que queira fazer,
um local que queira ir,
alguém que queira encontrar.

Que você nunca perca o interesse pela vida.
Hoje você não ganha apenas idade nova.
Ganha um ponto importante
na batalha cotidiana pela felicidade.


(Feliz aniversário, meu irmão!)

quinta-feira, 24 de março de 2011 10 comentários

Difícil


Admiro sua audácia e persistência 
ao avançar destemida sobre minhas fronteiras,
mesmo sabendo-me armado e defeso.

Não sei o que fez minha cotação
subir na sua bolsa de valores cardíaca:
meus lucros nunca foram tão grandes assim.

Mas que fique claro, de uma vez por todas,
que o shiatsu no meu ego não é
pré-requisito para minha satisfação.


terça-feira, 22 de março de 2011 12 comentários

Das águas que sabem de março


Fui hipnotizado pelas ondas
de um olhar
implacavelmente azul.

E na força das águas,
                            aportei

onde os olhos sabem suas lágrimas:

             enseadas lentas,
                            praias desertas e cais
             abandonados
em noites de recuerdos ao luar.

Súbito,

ventou um silêncio de brisa
                            e sem demora

                   : águas passadas,
                            sem ressaca.


segunda-feira, 21 de março de 2011 10 comentários

Alçapão


Todo mundo 
tem um
                                   
                                                        fundo
                                                        falso.

segunda-feira, 14 de março de 2011 14 comentários

Imisção


O relacionamento não é
um abrigo ou mesmo um teto.

É antes disso, e mais áspero.

Artificial como fronteiras
cartográficas, o ermo
onde o outro não é remédio
para a solidão,

nem a privacidade é mais
garantia de sossego.

É onde tropeçamos no escuro,
noite após noite após noite,
esperando por uma clareza
de propósito.

Dolorosamente
ineficientes
ao lidar com nossos
mútuos assombros,
é difícil
acreditar que chegamos
até aqui:
imiscíveis.


quinta-feira, 10 de março de 2011 10 comentários

Bagatelas


O tempo tem câimbras.
A noite se acomoda
como um corpo num banho,
exalando nuvens e luzes de carro
- tossindo pássaros.

A escuridão, como um abraço,
senta-se comigo e preenche o quarto
com esse estranho cio de silêncios,
onde as coisas são perdidas:
tardes de feriado,
o som de um velho vinil,
fotos desbotadas,
amigos de infância.

A lembrança se esfiapa em todas as direções,
como se eu estivesse guardando o mar
em alguidares de areia.

Tudo é líquido
e sem margens.

E o que a memória traz é um destilado:
construto de espelho e sombra,
um antilume íntimo
eclipsando esse momento sem nome.

Sou causa deste efeito,
tropegamente humano.

À hora em que não há socorro,
quem não consegue arcar
com o quotidiano ríspido
há que se asilar
no passado impregnado na pele.



terça-feira, 8 de março de 2011 10 comentários

Para um oito de março


Poemas há
que só podem ser escritos por mulheres.

Poemas de útero,
de úbere.

Poemas em curva,
labiados.

De uma sensualidade telúrica,

que traz no ventre
a possibilidade do verbo
fecundar outro corpo.


segunda-feira, 7 de março de 2011 14 comentários

Xis da questão


Não é porque não
estou sendo
lido que eu não
deva ser escrito.


sexta-feira, 4 de março de 2011 14 comentários

Exercício da vertigem


Há tristeza no signo do crepúsculo 
- a emprestar o tema.

O amor, sei que é
por um triz,
passadiço e árduo.

Mas com o que
e onde me escusar
do que não é amor,
simplesmente?


 
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