quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Falando em línguas


Eu falava o idioma da areia.
Minhas fricativas ásperas
entalhavam sons farpados
no ar entre nós; minhas sibilantes
deslizavam como se presas
dentro de uma ampulheta;
grãos escarlates cronometravam
minha voz enquanto arranhavam
a superfície da pele dela,
cravando-se em seu crânio
como uma tênue membrana de líquen.

Ela me respondeu na língua da água.
Deixou suas vogais fluírem
para preencher o espaço vazio
dentro de minhas oclusivas,
clamando cada canto
como o mar dentre as rochas,
libertando meu sopro ressonante
de repente –
uma magnólia de sentidos,
uma rara canção
em uníssono
com o vento e a lua.


14 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom,poeta!
Adorei a imagem escolhida.É ao mesmo tempo muito sutil e completa!

Beijo,

Morena

Fabrício César Franco disse...

Morena,

Sempre tento unir texto e imagem; nem sempre sou bem sucedido. Que bom que, dessa vez, eu fui (passar seu crivo é tranquilizador).

Beijo e obrigado pela visita!

Regina Bittencourt disse...

Um espetáculo de sensibilidade.

Fabrício César Franco disse...

Regina,

Muito obrigado pela visita! Bom saber que estou sendo lido por você!

Abraço!

Renata de Aragão Lopes disse...

'Eu falava o idioma da areia.'
'Ela me respondeu na língua da água.'

O homem inicia o diálogo.
E o faz em sua norma culta.
A mulher apenas lhe responde.
E o faz em sua natural volúpia.

Religiosos e freudianos
certamente teriam versões curiosas do seu poema. rs
Escritora, eu apenas os usarei como inspiração. Posso?

Um abraço,
Doce de lira

Valença disse...

Belíssimo diálogo!

Rafaela G. Figueiredo disse...

Cada vez q eu venho aqui, me impressiono, me emociono, me encanto, invejo...!
Tua poesia, Franco, é não só primorosa em poética, mas em questões linguísticas e gramaticais.
A multiplicidade semântica é fanstástica neste poema!
Isso é arte!

Um beijo, meu caro

Raquel Sales disse...

Fabrício,

Sabe quando é melhor não tentar dar palpite???? Qualquer coisa que eu escrever não faz jus à qualidade/profundidade do seu texto. Resta-me aplaudir (de pé)...

Bj

Fabrício César Franco disse...

Renata,

... Eu não pensei nos religiosos, muito menos nos freudianos (pego-me, agora, pensando numa hibridização perigosa de religiosos freudianos!) quando escrevi esse poema. Aliás, raras são as vezes que penso num público em particular para o que escrevo. O que mais me ocorre é que o poema se convulsiona em mim, até brotar. E claro que pode usá-lo como inspiração; peço-lhe somente que deixe o caminho das pedras, que me indique, posteriormente, o que foi produzido.

Um abraço, com carinho!

Fabrício César Franco disse...

Eliane,

Obrigado pelo elogio! Bom saber-me lido (e que a leitura foi benigna)!

Abraço!

Fabrício César Franco disse...

Rafaela,

Obrigado pelo seu olhar carinhoso sobre os meus escritos. Fico muito envaidecido por conta de seus elogios.

Um beijo, caríssima!

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

... Amiga, também não é para tanto, não é? Fico feliz que o meu poema tenha lhe causado tamanho arroubo, mas o senso crítico (ferocíssimo) me dá o real tamanho do que escrevo.

De todo modo, muito obrigado pela apreciação.

Beijo!

Anônimo disse...

Caríssimo POETA,
Como sempre, admiro seu trabalho com as METÁFORAS! Desta vez, METÁFORAS Gramaticais(sic!): fricativas, sibilantes,vogais, oclusivas!
..................................
E, apesar das VOZES diferentes, ao final, ocorre a HARMONIA:
"...uma rara canção
em UNÍSSONO
com o vento e a lua."
.................................
Oxalá sempre ASSIM aconteça na VIDA!
Grande abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Andrea,

Sei bem menos do que gostaria de fonética. Conheci, certa feita, uma professora que era tão sapiente na matéria que ganhou até apelido a respeito. Com ela é que aprendi o pouco que pude apresentar no poema...

Abraço, com carinho!

 
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