quarta-feira, 21 de maio de 2014

Despenhadeiro


“Escolher alguém é desvendar uma vida inteira.
E convidar a pessoa a desvendar a sua”
(Hanif Kureishi)


O vento põe calafrios
na alma das vidraças,
faz a ecometria do silêncio.
A pupila exercita a orgia
do ver olho no olho.
Você está mais linda do que de costume.

 
(Não há limite à beleza,
apenas proporções de olhares).

Seu colo é
berço e manjedoura
no desabrigo desta noite,
a diferença entre estar
presente e fazer companhia.

Quem nos dera fosse sempre assim,
essa quietude e contento. Há dias de liça,
rusgas nos pormenores da rotina,
azinhavre na ternura.
Já vivi isso antes e sei de toda a dor,
como tudo acaba.
Seus olhos craseados
ainda me fitam e contam-me
do contrário: toda a perfeição
de me saber adequado
e inequívoco aqui, ao seu lado.

Apesar dos avisos,
esqueço o que sei,
arrisco-me às consequências,
quebro os preceitos.

Minha cremnofobia que se dane,
quero é mais me atirar
nos braços desse precipício.


16 comentários:

Ana Brasileiro disse...

Meu querido Bonito, assim como tu, esqueço dos avisos e me jogo nos preciícios que a vida de quando em vez oferta. Grande beijo.

P.S. Colocando minha promessa em dia, de visitar e comentar no teu espaço.

Fabrício César Franco disse...

Bonita,

Obrigado pela visita. Que seja a primeira de muitas!

Beijo, com carinho!

Rafaela Figueiredo disse...

Franco, poetíssimo,
a beleza da sua poesia sei q não é só o meu olhar q atribui.
lindo demais isso! cada verso!
uma compreensão singular numa composição digníssima do Romantismo em pleno séc XXI.
obrigada por proporcionar [e re-despertar] esse sentimento de redenção diante da poesia.

um beijo

Anônimo disse...

Poeta,

Obrigada por presentear a mim e todos os seus leitores com tanta beleza e intensidade, e mais ainda por nos lembrar de que, muitas vezes, atirar-se do precipício é também um modo de nos manter vivos.
Belíssimo, como de costume.

Beijo,
Morena

Fredson Castro disse...

Muito legal Fabrício!! Continue assim. Sucesso!!

Fabrício César Franco disse...

Rafaela,

... Fico muito lisonjeado com o que me escreveu. Mesmo. Não me vejo inteiramente romântico, eu que percebo o sentimento se esvanecendo nesses tempos de átimo e átomo. Que, então, meu poema possa lhe instigar a voltar a nos brindar com seus escritos, ao menos!

Um beijo!!

Fabrício César Franco disse...

Morena,

Há paraquedas, eles dizem. E redes, também, a nos proteger da dor de cair.

Um beijo, com carinho!

Fabrício César Franco disse...

Fredson,

Muitíssimo obrigado pela visita e pelos comentários. Seja sempre muito bem-vindo!

Raquel Sales disse...

Poeta,
eis o segredo do precipício: aproveitar a adrenalina da corda bamba, mas lembrar da corda de segurança. "Por que de amor, pra entender, é preciso amar" (não consigo lembrar de quem é esta música).
Inté. Bj

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Muito obrigado pela citação do Djavan. E sim, adrenalina e rede de segurança faz o melhor malabarismo.

Abraço!!!

Raquel Sales disse...

Poeta,

se você me permitir, gostaria de fazer uma retificação (após vasculhar meus cd's)... Letra e música são do mestre Caymmi... Canção primorosa na voz da Nana...
Eis os versos na íntegra...

Só Louco (Dorival Caymmi)

Só louco
Amou como eu amei
Só louco
Quis o bem que eu quis
Oh! insensato coração
Por que me fizeste sofrer
Por que de amor para entender
É preciso amar
Porque
Só louco

Inté os próximos versos/canções.
Bj


Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Melhor ainda saber que a música veio da lavra do mestre Caymmi. Obrigado pela retificação.

Inté!!

Anônimo disse...

Caríssimo POETA,
Humanos, somos frágeis...
Diante dos PRECIPÍCIOS DO AMOR, até cremnóbatas sofrem acidentes...
...................................
( Admiráveis, "como de sempre", as metáforas de seu poema!).
Grande abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Andrea,

Admirável foi saber que há cremnóbatas...

Abraço, com carinho!

Tarciana Almeida disse...

Olá Fabrício,

mais uma vez, passo para parabenizá-lo e agradecer pelo presente que é sua poesia. Muito lindo o seu poema, de verdade. Para mim, eis o grande desafio humano, equilíbrio para saber quando e como se jogar nos despenhadeiros que inevitavelmente surgem, mas enquanto vivos que sigamos nos jogando, se não estaremos mortos em vida.
Um grande abraço!
Tarciana.

Fabrício César Franco disse...

Tarci,

Eu quem lhe agradeço a visita. O desafio é saber medir as profundidades antes dos saltos e, também, se vale a pena a firmeza das margens, dos penhascos, ao invés do acaso do que nos espera ao fim do despenhadeiro.

Abraço, com carinho!

 
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