terça-feira, 2 de julho de 2013 10 comentários

Bancando Dali


Vou desenhar você em uma voluta árabe,
um sinete de dervixe,
minudências descomedidas se alastrando
da paleta para a flor da tela,
faminta por sua emergência
em forma e cor. Dos traços
rápidos para a delicadeza
filigranada do que se compõe,
definida pelo contorno
que minhas mãos captam,
clandestinos detalhes no mistério
de seu rosto acodem às cerdas do pincel
: uma beleza feito brasa
que queima seu tecido delicioso
no dentro do quadro.

Eu giro trôpego na órbita de seus olhos
                                             (transgrido as leis da gravidade)
e faço suas sobrancelhas
crescerem em arcos nítidos,
entradas para espelhos castanhos,
dispersos em oceanos de lágrimas.

Você assiste de esguelha
todo laivo e borrão que tracejo,
testemunha da configuração
de meu alento, a boca em V,
num veredito iminente,
a julgar minha febre de cores
na pressa de pegar o essencial de sua imagem.

Todavia, você,
ilustrada, sabe.
Não é você                       ali, 

                                             é o coração.

sexta-feira, 28 de junho de 2013 14 comentários

Ínterim


A espera é uma forma de animação suspensa. 
O tempo se solidifica: um peso morto. 
Somos reprimidos, 
rendidos imóveis e desamparados. 
Somos castigados,                      
não por uma ofensa nossa, 
mas por aqueles que nos impõem a espera. 
E a dor está em saber 
que nosso recurso mais precioso    
– uma fração de nossa vida – 
está sendo roubado, 
irrevogavelmente perdido.

segunda-feira, 17 de junho de 2013 16 comentários

Caleidoscópio


Não sei pormenorizar
qual revés me vergastou
com tal veemência
que me fraturei em pedaços,
qual cacos de espelho ao chão.

Hoje,
cada vez que junto os estilhaços,
desponta um ser diferente,
mil em um
e um entre milhares,
um mosaico onde se enxerga
lascas de mim em cada parte
e nenhum reflexo
onde me caiba
inteiro.


terça-feira, 11 de junho de 2013 12 comentários

Mordaça


 
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