terça-feira, 29 de maio de 2012 18 comentários

Quiçá a crisálida de um outro encontro


Você sempre me encontra assim,
em noites eternas posto que impermanentes,
o único e absoluto tempo de viver.
Seu olhar é estradeiro, a saudade alada
e o coração, vagabundo.
Nem ouso perguntar
por onde tem andado,
você não diria.
Eu me desassossego,
queria ser ubíquo
em todos os seus atos
para não precisar
de tradução de seus gestos.
Sua versão é imperfeita,
menos vívida que legítima.
Há um abuso de entrelinhas,
frangalhos de memórias,
dejetos de enredos
que se extraviaram.
Suas frases,
atordoadas em lacunas,
contam do ruminante cotidiano.
Não sei se tomo
o valor nominal do que diz
como a real cotação das palavras.
Você me diz que está perdida.
Mas tantas vezes a gente se perdeu,
simplesmente porque tentamos
encontrar significado onde não havia.
Você insiste. Aponta para mim
como seu porto seguro,
mas diz que o mapa do retorno se consumiu,
a rosa dos rumos ensandecida.
Outros pretextos com que finjo concordar,
já que não me movo,
tenho estado aqui por eras.
Porém sei do seu apreço
pelo gosto de voltar
: sou todo familiaridade.

Fio de Teseu no labirinto.
Prendendo você justamente
por lhe dar toda a liberdade.


quarta-feira, 23 de maio de 2012 16 comentários

Canto geral


No que recuso o amor verbal,
desvalorizado
pelo excesso de aplicações ridículas:
pretendo,
simplesmente,
o aconchego das palavras
sem ciladas de sentido.

E no que evito a paixão
feita extorsão,
que chantageia cada palmo de atenção
com beijos como que ultimatos:
reclamo uma única noite
marcada na pele.

Assim subverto a vida.
Assim amo.



sábado, 19 de maio de 2012 18 comentários

Dos olhos secos


Dentro de mim ecoam tempestades

            de lágrimas inderramadas,
colecionadas ao longo dos anos
em letífero fluxo.

Quantas lágrimas são racionadas 
                        para cada um de nós?

Há uma quota que devemos respeitar?
Que cataclisma resultaria caso meu pranto
arrebentasse nesse instante,

feito uma represa que rompesse suas comportas

e tragasse a mim, na maré revolta
de tudo aquilo por que eu já quis chorar,
nada obstando não consegui,
olhos que só sabem carpir oceanos ressecados?

quinta-feira, 17 de maio de 2012 10 comentários


domingo, 13 de maio de 2012 18 comentários

Nuanças


Nossas despedidas cotidianas
somente foram ensaios para a cena final
: esse adeus numa manhã quarada de maio.
Em tinta, a tez do luto sobre o papel.
Sou todo ao convulso. Procuro razões.
Não há mais como
identificar a cor sem
embalsamar o camaleão.
O dia estaciona e a realidade
desce em mim feito avalanche.
Já não somos. Fomos.


quarta-feira, 9 de maio de 2012 20 comentários

Bagagem antiga



No vermelho escuro das pálpebras fechadas, 
uma lembrança escoa pelas frinchas
e folia nos longes dos anos.

Uma velha melodia,
ouvida ainda nos discos de vinil,
serve de trilha sonora
e rumina a memória
na dança da saudade.

Eu, garoto,
voltando da escola quase ao lado,
um único muro a dividir os mundos.
Minha sombra se alongando pelo chão,
com uma tarde de sol
a me escorrer pelo corpo seus dedos quentes,
a soletrar a nômade caligrafia dos pássaros. 

(A contextura das recordações se fragmenta
e não é necessário ser preciso,
basta saber que as coisas aconteceram).

Simultâneos, ele e eu
percebemos o mesmo:
a vida não é nada além
de um flerte e tudo
em que consistimos cabe
numa sentença –
“cada qual busca a Terra Prometida que lhe cabe,
e meu infinito é para dentro”.



sábado, 5 de maio de 2012 22 comentários

O cio da lua cheia


Estou sozinho
na noite intranquila:
rolo na cama.


 
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